Eu
não sei muito o que passa na televisão sobre a gente. — disse ele depois do que pareceu uma reflexão, olhando o dançar do fogo
que ainda restava, e continuou. — Eu gostava de assistir, mas não quero me
aborrecer ou ficar triste a cada vez que vejo o jornal. Não gosto de novela. É
tudo mentira e ensina muita coisa ruim para quem não entende da vida.
Minha
vida não foi fácil, mas tenho orgulho de quem sou e não me arrependo de nada na
vida. Nunca roubei, nem matei. Nunca levantei a mão para bater da sua avó, mas
nos filhos eu bati sempre que mereciam. A gente avisava, mas parece que eles
pediam para apanhar. Graças a Deus, são pessoas do bem.
Eu
digo que minha vida não foi fácil porque numa casa só eram meu pai, minha mãe e
eu tinha oito irmãos. A vida era muito dura e como eu era mais velho, com doze
anos fui trabalhar alugado. Arrancava toco, cuidava dos bichos, carregava sacos
de capim e palma o dia todo. No final de semana, quando era possível, eu vinha
e trazia o dinheiro para casa. Era quando a gente tinha um pedacinho de carne
uma vez ou outra. Não era como hoje, não. Você chegou e teve um banquete. Gosto
muito disso. — Ele deu um sorrisinho. — Quando eu chegava, dia de sábado, já
tinha que ir direto para feira vender o feijão debulhado, as pitombas
madurinhas e o queijo. Quando a gente vendia tudo era bom porque meu pai já
tinha o dinheiro de pagar ao trabalhador que o ajudava e comprava comida para
passar a semana. No domingo, depois de cortar palma, levar as cabeças de gado
para o pasto e limpar o mato a gente almoçava e descansava um pouco. Eu nem
tinha vontade de brincar com meus irmãos, e olhe que eu gostava de “pega-pega”,
jogar bola, esconde-esconde... mas eu preferia descansar, porque na segunda, 4h
da manhã, eu já tinha que sair de casa para começar tudo de novo. — Ele pausou
e ficou olhando o fogo mais uma vez. Eu não sabia, até então, de nada disso.
Apesar dele não estar respondendo muito o meu questionamento, a única coisa que
eu queria era continuar ouvindo.
Quando
eu estava fora conheci muitas meninas. — Continuou ele, olhando discretamente
de soslaio — A gente sempre dava um jeitinho de namorar. Eu encontrava a
namoradinha no caminho da escola, quando elas iam comprar alguma coisa na venda
ou quando ia para casa das colegas. Tinha que ser escondido, se não os dois
levavam um sacode dos pais. — Ele enrubesceu e, para falar a verdade, nem eu
acreditava que ele estava me dizendo aquilo. — Mas nunca desonrei a filha de
ninguém. Do mesmo jeito que eu não
queria que fizessem com minhas irmãs que eu tinha deixado em casa. Sua avó eu
conheci com 16 anos: a menina mais linda que eu já tinha visto. Foi com ela que
eu namorei em casa pela primeira vez. Eu trabalhava para o pai dela e ainda
lembro como eu tremia para falar com ele. Pensei que ele ia me enxotar de lá
rapidinho, mas não. Acho que ele me achava um rapaz trabalhador. Assentei, com
a ajuda de meu pai, tijolo por tijolo de nossa casa e assim que podemos,
casamos. — Creio ter visto, os olhos dele lacrimejarem. Apesar do entusiasmo,
minha avó morrera antes mesmo de eu viajar. Ele foi duro no velório, mas vejo,
hoje, que ele sentiu e sente muito. — E foi com o casamento que a resposta à
sua pergunta passou a falar mais forte dentro de mim. Porque com ele a gente
percebe que a nossa vida não é nada, quando colocamos a vida das pessoas que
amamos, antes de qualquer coisa.
A
televisão me mostrou muito a falta de água, a vida difícil, o gado que vive magro,
a comida que muitas vezes não temos, as escolas que mal tem professores; e tudo
isso é verdade. Se mostram é porque, de fato, acontecem. Mas o que ela não
mostra também acontece. A vida difícil aqui não impediu de gerar vida, meninos
e meninas que ficando aqui ou não, vivem nesse mundo de meu Deus fazendo uma
história que, muitas vezes, não vemos na televisão.
O
caminho que fiz quando menino e as escolhas que fiz, me levaram a ser o homem
que sou hoje. Aqui, nesse mundo, onde nada é dado de graça e as coisas não caem
do céu, cada dificuldade vencida é um degrau que nos faz chegar mais perto de
Deus. Tá aí uma coisa
que, aqui, nunca esquecemos. E por nunca
termos esquecido, é onde ele se faz mais presente.
Quem
disse que, como você, eu não tive vontade de ir para “Cidade Grande”? — Ele
olhou nos meus olhos e um segundo de silêncio, pareceu um século. — Mas eu vejo
o que ela faz com as pessoas: roubo, traição, abandono, morte... Sabe quando você
vê isso por aqui? Justamente quando a grandeza chega em nós, e a gente nem
precisa sair de casa pra isso.
A
vida difícil aqui, como mostra a televisão, pode ter muitas consequências, mas diferente
de vocês, eu sou livre para ir e vir onde e a hora que eu quiser, sem medo;
tenho uma família que olha para mim e conversa comigo, ao invés de um celular;
o pouco dinheiro que tenho é o suficiente para minha felicidade, porque não é
nas “coisas” que ela está; vejo o que é verde ficar seco, mas também vejo o que
está morto ganhar vida; e vou chegar ao fim de meus dias em paz com quem eu
sou, porque a vida me ensinou que ser quem sou é mais importante do que ser o
que as pessoas esperam.
Eu
nem sei se respondi sua pergunta, mas no fim, não importa o que as pessoas
falam ou veem deste lugar. Cada um só conhecerá a verdade quando viver a
verdade; e para viver a verdade, além de buscá-la, é preciso coragem.
Por
Herbert Monteiro
Foto:
Marcia Josiane






