Meu
nome é João. Também podem me chamar de John, pois foi o nome que usei quando
saí da Paraíba e fui para a “cidade grande”. John me fez pensar ser alguém
maior do que eu era, o cara descolado que todos iriam gostar de conhecer, um
livro novo que poderia ser escrito por um jornalista recém-formado: eu.
Dois
dias depois da formatura eu me despedia dos meus pais e estava indo em busca de
meus sonhos, afinal qual jornalista não gostaria de aparecer na Globo? Boa ou
ruim ela ainda é referência para o mundo e eu gostaria de fazer parte de uma
equipe de vencedores.
Com
a indicação certa de um parente, lá estava eu. Não era a emissora de televisão
que eu gostaria, nada de ser visto pelos telespectadores, não iria estar com
microfone dando notícias de última hora ou tendo uma participação no
telejornal. Meu papel era: fazer perguntas e anotar as respostas, e talvez
trechos de tudo isso que eu escreveria fosse aparecer em algum impresso, sem os
devidos créditos. Era um começo.
Dez
anos se passaram e, agora como colunista, eu “ganhei” um passaporte para onde
eu não pensava ir: minha terra natal. Sim, eu estava com saudades das pessoas
que faziam parte de minha vida, mas não pensava em retornar aonde, para mim,
parecia o ponto zero. Uma vida marcada por uma zona rural de renúncias e
dificuldades, quilômetros andados a pé até a escola, faltas na universidade por
ônibus de estudante que não se importavam com os alunos; brinquedos e
tecnologias que eu nunca iria possuir, comidas que eu nunca iria
experimentar... Enfim, não vou morar, agora é só trabalho!
A
pergunta que me fez alçar vôo é simples: diante de tudo o que aparece na mídia
sobre a seca e a vida no Nordeste, na realidade, o que é verdade e o que é
mentira?
Eu
poderia escrever um texto e unicamente entregá-lo, mas por que não perguntar a
alguém com uma visão que não seja a minha? Por que não fazê-la a alguém verdadeiro
e sincero? Então pensei comigo mesmo: por que não voltar às origens, de fato, e
saber de meu avô o que ele acha? Ahhh... digo meu avô porque nunca conheci meu
pai e minha mãe nunca gostou de onde vive, é mais uma “alegria” e “saudade” que
sinto de casa.
Cheguei
ao aeroporto e ninguém me aguardava, afinal, era preciso transporte e dinheiro
para que meus familiares se deslocassem. Minha mãe disse que iria me esperar
para um almoço especial, em família. Um táxi me trouxe pelas paisagens que eu
não mais lembrava nitidamente, mas parecia tudo estar no lugar. Como um vulcão
adormecido, as lembranças enraizadas só esperam uma oportunidade para explodir
e virar o centro das atenções.
Eram
quase 14h30 quando cheguei onde antes era minha casa e eu já imaginava quão
ansiosos todos deveriam estar, pois se lembro bem, o almoço era servido muito
mais cedo que isso. Ao som dos pneus do carro no cascalho, minha mãe veio à
porta, mas não conteve a pressa, indo até mim e me abraçando. Meu avô na
espreguiçadeira estava dando um sorriso discreto desde que me avistou, tios e
sobrinhos também estavam presentes, mas não podiam nutrir um sentimento
repentino por alguém que mal conheciam.
Assuntos
não faltaram ao longo do dia e a imagem que mais me marcou ali foi o entardecer
que eu não via há uma década. Aquele sol enorme que se prepara para descansar
depois de um longo dia de trabalho; que exibe uma beleza indescritível e que,
quando percebido, não deixa mais se ter assunto para conversa, permite apenas a
vontade de manter o olhar fixo no horizonte lembrando que a simplicidade supera
qualquer riqueza que possa ser comprada.
Não
era mês junino, mas minha mãe havia me dito que meu avô fez questão de fazer
uma fogueira para àquela noite, porque “ele lembrava que eu gostava muito de
brincar ao redor do fogo e assar espigas de milho”.
À
noite, lá estávamos nós, ao redor da fogueira e ao som do estalar do braseiro.
Não lembrava como um céu poderia ser tão estrelado e de uma luminosidade
magnífica.
Com
a barriga não aguentando mais, depois de comer todas as comidas de milho
possíveis, restaram só meu avô e eu. Estávamos lado a lado no silêncio, quando
a vontade de fazer a pergunta, cuja qual foi minha missão, escapuliu de meus
lábios. Sem prévio aviso. Sem explicar nem porque, nem para que. A surpresa até
para mim se fez, pois sem um papel, uma caneta ou um gravador, tudo o que foi
dito só pôde ser retido por meus pensamentos e, de fato, em meu coração. O que
ouvi, nem ao fim de meus dias, poderia ser esquecido.
Pude
transcrever, mais tarde, o que as regras gramaticais permitiram. Creio até hoje
que elas tiraram a essência do brilho daquele depoimento, mas não foram capazes
de apagar o sentimento avivado.
Para
uma pergunta técnica, que os anos de universidade me ensinaram, eis as linhas
em resposta:
>>> Continua! Ler Parte 2 (Publicação em breve) <<<
Por
Herbert Monteiro
Foto:
By Geiza Monteiro

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