segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Origens (Parte 1)



Meu nome é João. Também podem me chamar de John, pois foi o nome que usei quando saí da Paraíba e fui para a “cidade grande”. John me fez pensar ser alguém maior do que eu era, o cara descolado que todos iriam gostar de conhecer, um livro novo que poderia ser escrito por um jornalista recém-formado: eu.
Dois dias depois da formatura eu me despedia dos meus pais e estava indo em busca de meus sonhos, afinal qual jornalista não gostaria de aparecer na Globo? Boa ou ruim ela ainda é referência para o mundo e eu gostaria de fazer parte de uma equipe de vencedores.
Com a indicação certa de um parente, lá estava eu. Não era a emissora de televisão que eu gostaria, nada de ser visto pelos telespectadores, não iria estar com microfone dando notícias de última hora ou tendo uma participação no telejornal. Meu papel era: fazer perguntas e anotar as respostas, e talvez trechos de tudo isso que eu escreveria fosse aparecer em algum impresso, sem os devidos créditos. Era um começo.
Dez anos se passaram e, agora como colunista, eu “ganhei” um passaporte para onde eu não pensava ir: minha terra natal. Sim, eu estava com saudades das pessoas que faziam parte de minha vida, mas não pensava em retornar aonde, para mim, parecia o ponto zero. Uma vida marcada por uma zona rural de renúncias e dificuldades, quilômetros andados a pé até a escola, faltas na universidade por ônibus de estudante que não se importavam com os alunos; brinquedos e tecnologias que eu nunca iria possuir, comidas que eu nunca iria experimentar... Enfim, não vou morar, agora é só trabalho!
A pergunta que me fez alçar vôo é simples: diante de tudo o que aparece na mídia sobre a seca e a vida no Nordeste, na realidade, o que é verdade e o que é mentira?
Eu poderia escrever um texto e unicamente entregá-lo, mas por que não perguntar a alguém com uma visão que não seja a minha? Por que não fazê-la a alguém verdadeiro e sincero? Então pensei comigo mesmo: por que não voltar às origens, de fato, e saber de meu avô o que ele acha? Ahhh... digo meu avô porque nunca conheci meu pai e minha mãe nunca gostou de onde vive, é mais uma “alegria” e “saudade” que sinto de casa.
Cheguei ao aeroporto e ninguém me aguardava, afinal, era preciso transporte e dinheiro para que meus familiares se deslocassem. Minha mãe disse que iria me esperar para um almoço especial, em família. Um táxi me trouxe pelas paisagens que eu não mais lembrava nitidamente, mas parecia tudo estar no lugar. Como um vulcão adormecido, as lembranças enraizadas só esperam uma oportunidade para explodir e virar o centro das atenções.
Eram quase 14h30 quando cheguei onde antes era minha casa e eu já imaginava quão ansiosos todos deveriam estar, pois se lembro bem, o almoço era servido muito mais cedo que isso. Ao som dos pneus do carro no cascalho, minha mãe veio à porta, mas não conteve a pressa, indo até mim e me abraçando. Meu avô na espreguiçadeira estava dando um sorriso discreto desde que me avistou, tios e sobrinhos também estavam presentes, mas não podiam nutrir um sentimento repentino por alguém que mal conheciam.
Assuntos não faltaram ao longo do dia e a imagem que mais me marcou ali foi o entardecer que eu não via há uma década. Aquele sol enorme que se prepara para descansar depois de um longo dia de trabalho; que exibe uma beleza indescritível e que, quando percebido, não deixa mais se ter assunto para conversa, permite apenas a vontade de manter o olhar fixo no horizonte lembrando que a simplicidade supera qualquer riqueza que possa ser comprada.
Não era mês junino, mas minha mãe havia me dito que meu avô fez questão de fazer uma fogueira para àquela noite, porque “ele lembrava que eu gostava muito de brincar ao redor do fogo e assar espigas de milho”.
À noite, lá estávamos nós, ao redor da fogueira e ao som do estalar do braseiro. Não lembrava como um céu poderia ser tão estrelado e de uma luminosidade magnífica.
Com a barriga não aguentando mais, depois de comer todas as comidas de milho possíveis, restaram só meu avô e eu. Estávamos lado a lado no silêncio, quando a vontade de fazer a pergunta, cuja qual foi minha missão, escapuliu de meus lábios. Sem prévio aviso. Sem explicar nem porque, nem para que. A surpresa até para mim se fez, pois sem um papel, uma caneta ou um gravador, tudo o que foi dito só pôde ser retido por meus pensamentos e, de fato, em meu coração. O que ouvi, nem ao fim de meus dias, poderia ser esquecido.
Pude transcrever, mais tarde, o que as regras gramaticais permitiram. Creio até hoje que elas tiraram a essência do brilho daquele depoimento, mas não foram capazes de apagar o sentimento avivado.
Para uma pergunta técnica, que os anos de universidade me ensinaram, eis as linhas em resposta:

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Por Herbert Monteiro

Foto: By Geiza Monteiro

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