terça-feira, 26 de setembro de 2017

Origens (Parte 2)


Eu não sei muito o que passa na televisão sobre a gente. — disse ele depois do que pareceu uma reflexão, olhando o dançar do fogo que ainda restava, e continuou. — Eu gostava de assistir, mas não quero me aborrecer ou ficar triste a cada vez que vejo o jornal. Não gosto de novela. É tudo mentira e ensina muita coisa ruim para quem não entende da vida.
Minha vida não foi fácil, mas tenho orgulho de quem sou e não me arrependo de nada na vida. Nunca roubei, nem matei. Nunca levantei a mão para bater da sua avó, mas nos filhos eu bati sempre que mereciam. A gente avisava, mas parece que eles pediam para apanhar. Graças a Deus, são pessoas do bem.
Eu digo que minha vida não foi fácil porque numa casa só eram meu pai, minha mãe e eu tinha oito irmãos. A vida era muito dura e como eu era mais velho, com doze anos fui trabalhar alugado. Arrancava toco, cuidava dos bichos, carregava sacos de capim e palma o dia todo. No final de semana, quando era possível, eu vinha e trazia o dinheiro para casa. Era quando a gente tinha um pedacinho de carne uma vez ou outra. Não era como hoje, não. Você chegou e teve um banquete. Gosto muito disso. — Ele deu um sorrisinho. — Quando eu chegava, dia de sábado, já tinha que ir direto para feira vender o feijão debulhado, as pitombas madurinhas e o queijo. Quando a gente vendia tudo era bom porque meu pai já tinha o dinheiro de pagar ao trabalhador que o ajudava e comprava comida para passar a semana. No domingo, depois de cortar palma, levar as cabeças de gado para o pasto e limpar o mato a gente almoçava e descansava um pouco. Eu nem tinha vontade de brincar com meus irmãos, e olhe que eu gostava de “pega-pega”, jogar bola, esconde-esconde... mas eu preferia descansar, porque na segunda, 4h da manhã, eu já tinha que sair de casa para começar tudo de novo. — Ele pausou e ficou olhando o fogo mais uma vez. Eu não sabia, até então, de nada disso. Apesar dele não estar respondendo muito o meu questionamento, a única coisa que eu queria era continuar ouvindo.
Quando eu estava fora conheci muitas meninas. — Continuou ele, olhando discretamente de soslaio — A gente sempre dava um jeitinho de namorar. Eu encontrava a namoradinha no caminho da escola, quando elas iam comprar alguma coisa na venda ou quando ia para casa das colegas. Tinha que ser escondido, se não os dois levavam um sacode dos pais. — Ele enrubesceu e, para falar a verdade, nem eu acreditava que ele estava me dizendo aquilo. — Mas nunca desonrei a filha de ninguém.  Do mesmo jeito que eu não queria que fizessem com minhas irmãs que eu tinha deixado em casa. Sua avó eu conheci com 16 anos: a menina mais linda que eu já tinha visto. Foi com ela que eu namorei em casa pela primeira vez. Eu trabalhava para o pai dela e ainda lembro como eu tremia para falar com ele. Pensei que ele ia me enxotar de lá rapidinho, mas não. Acho que ele me achava um rapaz trabalhador. Assentei, com a ajuda de meu pai, tijolo por tijolo de nossa casa e assim que podemos, casamos. — Creio ter visto, os olhos dele lacrimejarem. Apesar do entusiasmo, minha avó morrera antes mesmo de eu viajar. Ele foi duro no velório, mas vejo, hoje, que ele sentiu e sente muito. — E foi com o casamento que a resposta à sua pergunta passou a falar mais forte dentro de mim. Porque com ele a gente percebe que a nossa vida não é nada, quando colocamos a vida das pessoas que amamos, antes de qualquer coisa.
A televisão me mostrou muito a falta de água, a vida difícil, o gado que vive magro, a comida que muitas vezes não temos, as escolas que mal tem professores; e tudo isso é verdade. Se mostram é porque, de fato, acontecem. Mas o que ela não mostra também acontece. A vida difícil aqui não impediu de gerar vida, meninos e meninas que ficando aqui ou não, vivem nesse mundo de meu Deus fazendo uma história que, muitas vezes, não vemos na televisão.
O caminho que fiz quando menino e as escolhas que fiz, me levaram a ser o homem que sou hoje. Aqui, nesse mundo, onde nada é dado de graça e as coisas não caem do céu, cada dificuldade vencida é um degrau que nos faz chegar mais perto de Deus. Tá aí uma coisa
 que, aqui, nunca esquecemos. E por nunca termos esquecido, é onde ele se faz mais presente.
Quem disse que, como você, eu não tive vontade de ir para “Cidade Grande”? — Ele olhou nos meus olhos e um segundo de silêncio, pareceu um século. — Mas eu vejo o que ela faz com as pessoas: roubo, traição, abandono, morte... Sabe quando você vê isso por aqui? Justamente quando a grandeza chega em nós, e a gente nem precisa sair de casa pra isso.
A vida difícil aqui, como mostra a televisão, pode ter muitas consequências, mas diferente de vocês, eu sou livre para ir e vir onde e a hora que eu quiser, sem medo; tenho uma família que olha para mim e conversa comigo, ao invés de um celular; o pouco dinheiro que tenho é o suficiente para minha felicidade, porque não é nas “coisas” que ela está; vejo o que é verde ficar seco, mas também vejo o que está morto ganhar vida; e vou chegar ao fim de meus dias em paz com quem eu sou, porque a vida me ensinou que ser quem sou é mais importante do que ser o que as pessoas esperam.
Eu nem sei se respondi sua pergunta, mas no fim, não importa o que as pessoas falam ou veem deste lugar. Cada um só conhecerá a verdade quando viver a verdade; e para viver a verdade, além de buscá-la, é preciso coragem.


Por Herbert Monteiro

Foto: Marcia Josiane

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Origens (Parte 1)



Meu nome é João. Também podem me chamar de John, pois foi o nome que usei quando saí da Paraíba e fui para a “cidade grande”. John me fez pensar ser alguém maior do que eu era, o cara descolado que todos iriam gostar de conhecer, um livro novo que poderia ser escrito por um jornalista recém-formado: eu.
Dois dias depois da formatura eu me despedia dos meus pais e estava indo em busca de meus sonhos, afinal qual jornalista não gostaria de aparecer na Globo? Boa ou ruim ela ainda é referência para o mundo e eu gostaria de fazer parte de uma equipe de vencedores.
Com a indicação certa de um parente, lá estava eu. Não era a emissora de televisão que eu gostaria, nada de ser visto pelos telespectadores, não iria estar com microfone dando notícias de última hora ou tendo uma participação no telejornal. Meu papel era: fazer perguntas e anotar as respostas, e talvez trechos de tudo isso que eu escreveria fosse aparecer em algum impresso, sem os devidos créditos. Era um começo.
Dez anos se passaram e, agora como colunista, eu “ganhei” um passaporte para onde eu não pensava ir: minha terra natal. Sim, eu estava com saudades das pessoas que faziam parte de minha vida, mas não pensava em retornar aonde, para mim, parecia o ponto zero. Uma vida marcada por uma zona rural de renúncias e dificuldades, quilômetros andados a pé até a escola, faltas na universidade por ônibus de estudante que não se importavam com os alunos; brinquedos e tecnologias que eu nunca iria possuir, comidas que eu nunca iria experimentar... Enfim, não vou morar, agora é só trabalho!
A pergunta que me fez alçar vôo é simples: diante de tudo o que aparece na mídia sobre a seca e a vida no Nordeste, na realidade, o que é verdade e o que é mentira?
Eu poderia escrever um texto e unicamente entregá-lo, mas por que não perguntar a alguém com uma visão que não seja a minha? Por que não fazê-la a alguém verdadeiro e sincero? Então pensei comigo mesmo: por que não voltar às origens, de fato, e saber de meu avô o que ele acha? Ahhh... digo meu avô porque nunca conheci meu pai e minha mãe nunca gostou de onde vive, é mais uma “alegria” e “saudade” que sinto de casa.
Cheguei ao aeroporto e ninguém me aguardava, afinal, era preciso transporte e dinheiro para que meus familiares se deslocassem. Minha mãe disse que iria me esperar para um almoço especial, em família. Um táxi me trouxe pelas paisagens que eu não mais lembrava nitidamente, mas parecia tudo estar no lugar. Como um vulcão adormecido, as lembranças enraizadas só esperam uma oportunidade para explodir e virar o centro das atenções.
Eram quase 14h30 quando cheguei onde antes era minha casa e eu já imaginava quão ansiosos todos deveriam estar, pois se lembro bem, o almoço era servido muito mais cedo que isso. Ao som dos pneus do carro no cascalho, minha mãe veio à porta, mas não conteve a pressa, indo até mim e me abraçando. Meu avô na espreguiçadeira estava dando um sorriso discreto desde que me avistou, tios e sobrinhos também estavam presentes, mas não podiam nutrir um sentimento repentino por alguém que mal conheciam.
Assuntos não faltaram ao longo do dia e a imagem que mais me marcou ali foi o entardecer que eu não via há uma década. Aquele sol enorme que se prepara para descansar depois de um longo dia de trabalho; que exibe uma beleza indescritível e que, quando percebido, não deixa mais se ter assunto para conversa, permite apenas a vontade de manter o olhar fixo no horizonte lembrando que a simplicidade supera qualquer riqueza que possa ser comprada.
Não era mês junino, mas minha mãe havia me dito que meu avô fez questão de fazer uma fogueira para àquela noite, porque “ele lembrava que eu gostava muito de brincar ao redor do fogo e assar espigas de milho”.
À noite, lá estávamos nós, ao redor da fogueira e ao som do estalar do braseiro. Não lembrava como um céu poderia ser tão estrelado e de uma luminosidade magnífica.
Com a barriga não aguentando mais, depois de comer todas as comidas de milho possíveis, restaram só meu avô e eu. Estávamos lado a lado no silêncio, quando a vontade de fazer a pergunta, cuja qual foi minha missão, escapuliu de meus lábios. Sem prévio aviso. Sem explicar nem porque, nem para que. A surpresa até para mim se fez, pois sem um papel, uma caneta ou um gravador, tudo o que foi dito só pôde ser retido por meus pensamentos e, de fato, em meu coração. O que ouvi, nem ao fim de meus dias, poderia ser esquecido.
Pude transcrever, mais tarde, o que as regras gramaticais permitiram. Creio até hoje que elas tiraram a essência do brilho daquele depoimento, mas não foram capazes de apagar o sentimento avivado.
Para uma pergunta técnica, que os anos de universidade me ensinaram, eis as linhas em resposta:

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Por Herbert Monteiro

Foto: By Geiza Monteiro

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O que os olhos não veem!


O que os olhos não veem!

O clima ameno de uma sexta-feira é o que todos gostariam de ter, vibrando por um fim de semana fora dos padrões que a rotina exige. Porém, a mesma caminhada o esperava, assim como os mesmos lugares, as mesmas pessoas. Para tudo isso ele estava pronto, sempre com o mesmo "eu".
— Bom dia, Hugo — Exclamou felizmente sua colega ao vê-lo entrar pelo portão prateado da escola, recém pintado. —Tudo bem?
— Bom dia! — Respondeu ele com os olhos brilhantes de sempre. — Claro! E você?
Perguntas iguais de remetentes diferentes são feitas todos os dias, automaticamente como uma programação de redes sociais, nem sempre pelas mesmas pessoas, mas uma coisa é certa: querem sempre as respostas que as satisfazem. Será que as pessoas nunca percebem que, na maior parte do tempo, dizer que tudo está bem é mais fácil que responder a uma sequência de outras perguntas que não querem ser respondidas?
Hugo era o amigo ideal, o filho exemplar, o aluno que supera as expectativas, o cristão que parecia não ter defeitos... menos o que ele mesmo gostaria de ser, porque nem ele mesmo sabia o caminho para isso.
Naquela manhã, em especial, o professor de matemática parecia demonstrar algo indecifrável. Seus pensamentos esvoaçavam em um milhão de coisas, sem foco, sem direção.
O que está havendo? Por que isso, agora? Será que felicidade é só viver em um mundo de aparências? — As perguntas não davam tempo às respostas. O peito apertou e a respiração tornou-se anormal de forma repentina, como se tivéssemos um susto de algo que estamos para descobrir subitamente. Ele chegou a sentir a umidade que chegava em suas pálpebras e a enxergar através delas. Isso não podia acontecer! Não sem um motivo, sem um porquê. Não há lógica nisso, mas quem precisa de lógica para sentir?
Ele levantou-se de sua carteira para caminhar em direção à porta da sala de aula, deixando o celular cair ao chão. Não olhou para trás, e agora, já no imenso corredor, correu como se a última coisa que quisesse fosse saltar o portão que o impedia de ser livre. Não precisou. Ele estava aberto. Correu e continuou correndo, vendo de relance as sombras das pessoas que o olhavam e das árvores nas calçadas que nunca o acompanhariam. O gosto salubre da lágrima parecia algo que nunca havia sentido e não era para ser perceptível agora.
A buzina estridente de uma caminhonete o fez acordar do transe e virar-se quando percebeu que já estava no meio da rua, dois ou três carros parados repentinamente para evitar o acidente. Ele limpou o rosto e caminhou devagar. Só um lugar veio a sua mente: o observatório da cidade, a poucos metros dali.
Em poucos minutos, a uma altura grande o suficiente para sentir o vento gélido, mesmo diante do brilhar do sol, ele segurava as grades de proteção e fitava ora o horizonte, ora as pessoas na correria de sempre, como pontos pequenos lá embaixo.
O que é mais fácil: viver aqui tendo sensações que nem você entende ou entrar em um sono profundo onde tudo será paz? — Perguntava-se quando se deu conta o quanto seria fácil voar dali sentindo o ar de liberdade até o encontro da verdadeira paz. Fechou os olhos. O coração bateu forte, sentindo-o no tremer dos seus lábios. Simples, rápido, fácil. O silêncio.
— Rapaz — Uma voz rompeu a calmaria. — Você pode tirar uma foto nossa? Estamos em lua de mel e gostaríamos de ter esta paisagem em nossas recordações.
Agora, sentado na varanda de sua casa, lutava para não pensar no hoje, enquanto olhava o crepúsculo através de uma árvore há muito vivida e que, apenas agora, chamou como nunca sua atenção para uma nova perspectiva. Pensava consigo mesmo quantas vezes a observou como um ser solitário que vive para ver o brilho de algo maior. Hoje, como um ser ainda solitário, mas que por algo maior viveu e vive deixando os rastros de sua existência.
— Oi, meu amor. Está tudo bem? — Perguntou sua mãe que chegava do trabalho e deslizou sua mão sobre os cabelos de seu único filho.
— Claro! E a senhora?


Por Herbert Monteiro

Foto: Jennyffer Lopes (Amiga Incrível)